Alfredo Moreira Filho, engenheiro agrônomo que fez mestrado em Gestão de Negócios na USP em 1998, percorreu caminho que muitos profissionais técnicos reconhecem como contraditório: quanto mais ele avançava na carreira, menos tempo passava fazendo aquilo para o qual havia estudado originalmente em Viçosa.
Quando o técnico precisa aprender a entregar por meio das pessoas?
Na engenharia, o resultado depende diretamente do que o profissional faz com as próprias mãos, ferramentas ou cálculos: o laudo, o projeto, o diagnóstico técnico. Na gestão, o resultado passa quase inteiramente pela capacidade de fazer outras pessoas produzirem com qualidade e no prazo certo, habilidade que nenhum curso de engenharia costuma ensinar formalmente de maneira suficiente.
Essa transição exige aprender um conjunto inteiramente novo de competências, como comunicação clara de objetivos, acompanhamento de metas e resolução de conflitos entre equipes, nenhuma delas presente no currículo técnico de quem se formou em agronomia, engenharia civil ou qualquer outra especialidade técnica tradicional. A maioria dos engenheiros descobre isso apenas já dentro da função de gestão.
O que o engenheiro leva e o que precisa largar?
A formação técnica oferece vantagem real em gestão: capacidade de estruturar problemas com lógica, atenção rigorosa a dados e resistência a soluções superficiais sem evidência concreta por trás. Quem passou anos resolvendo problemas técnicos tende a buscar a causa raiz em vez de tratar apenas o sintoma visível, postura valiosa em qualquer função gerencial que exija decisões baseadas em análise.
Por outro lado, a mesma formação técnica pode se tornar obstáculo quando o profissional insiste em resolver diretamente problemas que deveriam ser resolvidos pela equipe, dificuldade clássica de engenheiros em posições de gestão, que tendem naturalmente a operar por autonomia individual em vez de por delegação eficaz para outras pessoas.
O mestrado como momento de transição deliberada
Alfredo Moreira Filho buscou o mestrado em Gestão de Negócios na USP décadas depois de ter concluído a graduação em agronomia em Viçosa, decisão que reflete percepção clara de que a experiência prática acumulada precisava ser complementada por ferramentas específicas de administração e estratégia para sustentar o próximo passo na carreira profissional.
Essa combinação, formação técnica sólida somada à qualificação formal em gestão, é vista por especialistas em desenvolvimento de liderança como uma das mais robustas para quem pretende empreender ou assumir posições de alta gestão em organizações complexas, onde tanto o rigor técnico quanto a habilidade gerencial são exigidos ao mesmo tempo.
Por que a transição raramente acontece de uma vez?
Poucos profissionais passam da engenharia para a gestão em um único movimento deliberado e planejado. O mais comum é uma sequência gradual de passos, como aconteceu com Alfredo Moreira Filho, que foi de engenheiro agrônomo a chefe de escritório técnico, depois a gestor corporativo em empresa de construção pesada, e só então a fundador de negócio próprio em Brasília.
Cada etapa desse percurso exige abrir mão de uma parte da identidade profissional anterior construída com tanto esforço, processo que pode ser emocionalmente difícil para quem construiu a própria reputação sobre competência técnica específica, mas que se torna inevitável para quem escolhe crescer para posições de liderança ao longo da carreira.
O ponto de chegada nem sempre é onde se esperava
A maioria dos engenheiros que fazem essa transição não planeja chegar aonde chegou desde o início da carreira técnica; as oportunidades que surgem, as necessidades do mercado e as próprias escolhas ao longo do caminho vão moldando a trajetória de forma que raramente segue um plano linear e bem definido desde o começo.
Alfredo Moreira Filho, que saiu da Bahia com o objetivo de se tornar engenheiro agrônomo e acabou fundando uma empresa de gestão empresarial em Brasília décadas depois, ilustra bem como trajetórias profissionais longas tendem a surpreender até quem as viveu, revelando possibilidades que a formação original jamais teria antecipado com qualquer precisão real.
