O esgoto sem tratamento continua sendo um dos maiores desafios da infraestrutura urbana brasileira, com reflexos diretos na saúde pública de milhões de moradores. Felipe Schroeder dos Anjos, sendo engenheiro ambiental, menciona que a ausência de coleta e tratamento adequados cria um ciclo silencioso de contaminação, porque compromete o solo, os cursos d’água e o próprio abastecimento das cidades.
Tendo isso em vista, compreender essa cadeia exige olhar o saneamento básico como determinante social de saúde, não apenas como obra técnica isolada. Nos próximos parágrafos, detalharemos como a falta de coleta de esgoto se conecta às doenças de veiculação hídrica e gera custos indiretos para o sistema de saúde.
O que acontece quando o esgoto não é coletado nas cidades?
Quando o esgoto não passa por coleta e tratamento, ele segue o caminho mais curto disponível: valas, córregos ou o próprio solo urbano. Essa contaminação hídrica se espalha rapidamente, atingindo lençóis freáticos e fontes que muitas vezes abastecem bairros inteiros. O problema se agrava em regiões onde a rede de esgotamento sanitário nunca foi ampliada na mesma velocidade da ocupação urbana.
Conforme ressalta Felipe Schroeder dos Anjos, o impacto não fica restrito ao meio ambiente, porque a água contaminada retorna ao ciclo de consumo das próprias famílias que vivem nessas áreas. Esse retorno silencioso explica por que cidades com baixa cobertura de coleta enfrentam índices mais altos de doenças evitáveis, mesmo quando outros indicadores sociais melhoram com o tempo.
Esse cenário se agrava conforme a cidade cresce sem acompanhamento proporcional da rede de esgotamento sanitário, criando bairros inteiros que dependem de fossas improvisadas ou lançamento direto em cursos d’água próximos, o que amplia o raio de contaminação hídrica sobre a população vizinha.
Doenças de veiculação hídrica: da contaminação ao adoecimento
A conexão entre esgoto sem tratamento e adoecimento segue uma lógica direta. Vírus, bactérias e parasitas presentes nos dejetos humanos contaminam água e alimentos, e o resultado aparece em quadros como diarreia aguda, hepatite A, leptospirose e, em situações mais graves, cólera. Crianças pequenas e idosos formam o grupo mais vulnerável a esse ciclo de contaminação hídrica.

Isto posto, esse conjunto de doenças de veiculação hídrica não atinge todos igualmente. Bairros periféricos, onde a cobertura de coleta costuma ser menor, concentram boa parte dos casos registrados nos postos de saúde. Felipe Schroeder dos Anjos alude que essa desigualdade territorial transforma o saneamento em uma questão também social, e não apenas sanitária, na medida em que reproduz as mesmas fronteiras urbanas da desigualdade.
Por que o problema chega ao sistema de saúde pública?
Cada caso de doença de veiculação hídrica representa uma sequência de custos que vai muito além do atendimento inicial. De acordo com Felipe Schroeder dos Anjos, consultas, exames, internações e, em quadros mais graves, tratamentos prolongados pressionam hospitais e unidades básicas que já operam no limite da capacidade. Essa pressão se torna mais visível justamente nos períodos de chuva, quando a diluição de esgoto nos córregos aumenta o volume de atendimentos.
Esses custos raramente aparecem de forma isolada nas contas públicas, porque se somam ao absenteísmo escolar e trabalhista causado por episódios de diarreia e outras infecções. Uma cidade que investe pouco em coleta de esgoto acaba pagando, de outra forma, pela ausência dessa infraestrutura, através de gastos que poderiam ser evitados com prevenção.
Os custos indiretos que poucas cidades contabilizam
Além dos gastos diretos com atendimento médico, existe uma camada de custos indiretos que raramente entra no debate sobre saneamento. Conforme pontua o engenheiro ambiental, Felipe Schroeder dos Anjos, esses efeitos se espalham por diferentes áreas da vida urbana e ajudam a explicar por que investir em coleta de esgoto é também uma decisão econômica. Assim sendo, entre os principais impactos, destacam-se:
- Produtividade perdida: trabalhadores afastados por doenças evitáveis reduzem a força produtiva da cidade e aumentam custos para empresas locais.
- Turismo e economia local: áreas com histórico de contaminação hídrica perdem atratividade para visitantes e investidores.
- Valorização imobiliária: bairros sem rede de esgotamento sanitário tendem a apresentar preços de imóveis mais baixos.
- Gastos ambientais futuros: a despoluição de rios e córregos contaminados custa mais do que a prevenção original.
Esses custos indiretos costumam ser subestimados justamente por não aparecerem em uma única conta, o que dificulta o dimensionamento real do problema. Ainda assim, eles se acumulam e pesam sobre o orçamento das cidades ano após ano.
Sanear é evitar gastos futuros, não apenas resolver um problema atual
Em última análise, o esgoto sem tratamento revela, acima de tudo, uma falha de planejamento que se paga em saúde pública, não em obras. Dessa maneira, cada ligação de rede adiada hoje se transforma em atendimento hospitalar amanhã. Logo, tratar saneamento como prioridade estrutural, e não como pauta secundária, é o que separa cidades que reduzem doenças evitáveis das que continuam reagindo às mesmas crises.
